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Historiador boliviano diz que Revolução Acreana foi um “assalto” |
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Josafá Batista
“Uma
revolução se forma quando o povo de determinado país se revolta
contra a tirania de seus governantes. O que aconteceu no Acre não foi
revolução. Foi guerra. Contra outro povo, outra nação. Roubaram o
Acre. E como se não bastasse, não pagaram as supostas ‘compensações’
até hoje”. Página 20 – Como historiador boliviano, suas pesquisam relacionam-se à história do seu país ou o senhor as encaixa num contexto geral? Hernan – Não vou negar que sou boliviano, de Cobija. Minhas teses principais giram em torno do desenvolvimento do atual Estado de Pando, naquele país. No estudo da sua formação histórica há fortes incursões sobre a história acreana ou de fatos envolvendo o Acre. Mas apenas narro os fatos, não situo em qualquer “contexto” onde ele simplesmente não existe.
Página 20 – Cobija tem hoje um comércio bem forte, não? Hernan – Na verdade o comércio do rio Acre começa em Cobija. Nós até lamentamos que essas regiões brasileiras sejam ainda hoje tão pobres, que os cidadãos brasileiros que nelas vivem não tenham como ganhar a comida para si e para seus filhos. É natural que essas famílias acabam procurando um lugar mais promissor, que ofereça maior renda familiar. Na Bolívia. Página 20 – Há também notícias de muitos acreanos vivendo clandestinamente na zona rural boliviana. Hernan – Há muitos, sim. Se é certo ou errado, é relativo, porque essa história de limites, fronteiras é tudo história formal de países, de documentos. Na prática, principalmente para quem precisa dar de comer aos seus filhos, isso não existe. Os acreanos são e sempre foram bem-vindos na Bolívia, porque trabalham muito, são resistentes na lavoura. Só promovem o desenvolvimento Página 20 – Interessante que foi exatamente isso, a presença de brasileiros clandestinos nas terras acreanas, que iniciou o processo de revolução. Hernan – Sim (pausa). Foi mesmo, mas não totalmente. Na verdade, não havia uma preocupação real com os brasileiros que viviam aqui, mas com as riquezas da Amazônia. Com a borracha, especialmente. Os relatórios da época ao governo brasileiro nem tocavam nos acreanos dessa região. Só de borracha, borracha, borracha. Página 20 – Mas a revolução libertou os acreanos da exploração hispânica. Hernan – Não. Nem revolução existiu. Revolução acontece quando um povo de determinado país se revolta contra seu governo, pedindo melhoras ou protestando contra algum regime ditatorial. O que aconteceu nas terras acreanas foi guerra. Guerra ocorre quando um povo luta contra outro, por algum interesse ou retaliação, como acontece hoje entre Estados Unidos e Afeganistão. Então o nome certo seria “Guerra do Acre”, não “Revolução Acreana”.
Página 20 – Mas nas cartas de Thaumaturgo Azevedo ao governo brasileiro havia narrativas de brasileiros vivendo aqui. Não foi isso que gerou a revolução - ou guerra, como o senhor prefere? Hernan – O coronel Thaumaturgo Azevedo apenas encontrou, em 1879, as fontes do rio Javari onde havia povoados brasileiros. A missão dele era estabelecer as fronteiras entre o Brasil e a Bolívia, mas, ao perceber que a região era muito rica em seringueiras, reclamou ao seu governo a posse brasileira na região. Mas isso nada teve a ver com pessoa, e sim com dinheiro. Página 20 – Mas não havia, antes disso, a exploração de borracha naqueles seringais? Hernan – Havia sim e essa era a segunda preocupação do comissário brasileiro encarregado da repartição. Eu tive acesso a um documento em que ele especula em mais de 12 milhões de dólares a quantia a ser devolvida à Bolívia por essas explorações anteriores de borracha. Isso aumentou o impasse. Então não era com as pessoas a preocupação dele, mas com o dinheiro que seriam obrigados a devolver. Isso além de todo o potencial ainda inexplorado. Página 20 – Chama a atenção a Bolívia nunca ter se interessado pela exploração da seringa desse território... Hernan – Não acho que chame tanto assim. A Bolívia tinha desenvolvido um plano de exploração agrícola que começava pelo sul do país e ia subindo. A região correspondente ao Acre ficava bem ao norte e por isso havia poucos seringais bolivianos. Página 20 – Mas o Brasil reconheceu, com Cunha Gomes, que o território acreano pertencia à Bolívia... Hernan – Para logo depois o Barão do Rio Branco considerar esse mesmo território “litigioso”. E como ele era um homem muito influente e poderoso, ordenou ao Exército Brasileiro, que, por isso, invadisse o território e garantisse uma suposta “soberania brasileira” na região - que ainda estava em litígio, segundo o próprio Barão. Página 20 – E na sua opinião, como historiador e como boliviano, era mesmo litigioso ou não? Hernan – Sem patriotismo saudosista, não. Não era mesmo. Página 20 – Por quê? Hernan – Porque um exame mais aprofundado da história mais antiga revela que esse território correspondente ao Acre foi dado como presente por um ditador boliviano chamado Mariano Melgarejo, que era analfabeto. Ele recebeu também como presente um cavalo e quatro medalhas e em troca ao embaixador Régino Correia ofereceu 500 mil quilômetros quadrados a partir do paralelo 7 até o 10 de latitude sul. Página 20 – Esse detalhe pouca gente sabe. E não aparece nos livros de história. Hernan – Mas nos bolivianos ele consta. Essa região do paralelo 7 era a linha da fronteira do Estado do Amazonas mediante o tratado de São Ildefonço, de 1777. Esse ditador maluco deu esse território como presente ao Brasil, e a região que ia da fronteira com Boca do Acre até o nascimento do rio Madeira era o paralelo 10. Um quadrilátero imenso de terras, doadas em troca de um cavalo e medalhas. Página 20 – Mas isso não entra em contradição com o Tratado de Ayacucho, que excluía o Acre do Brasil? Hernan – Sim. E o Tratado de Ayacucho foi feito pelo próprio Mariano Melgarejo. Para você ver como as coisas são inconstantes no mundo da política, quando existem grandes interesses em jogo. Página 20 – Que tipo de interesses poderiam existir num Estado lá no oeste da floresta amazônica? Hernan – Financeiros, é evidente! A seringa valia ouro no mercado de então e os capitalistas da época, principalmente os norte-americanos, a queriam para fazer pneus e outros subprodutos. Pesquisas sobre o tema mostram que na época até o governador do Amazonas, Ramalho Júnior, começou a financiar expedições ao Acre para explorar a seringa. E ao mesmo tempo contratava homens como o coronel Rodrigo de Carvalho para que fizessem uma agitação popular, esboçando uma revolução contra o domínio boliviano. Página 20 – E a Bolívia, como ficava diante dessas notícias de revolução e da cobiça multinacional? Hernan – Com indignação. Até porque os interesses da revolução eram escusos, não se relacionavam ao Estado, mas à seringa. Não era revolução, era uma agressão à Bolívia. O que ela fazia em seguida era apenas reforçar sua guarda nas terras que lhe pertenciam, pelo menos, legalmente. Página 20 – Então o Brasil roubou o Acre da Bolívia? Hernan – Sim. Roubou. A prova é que depois, quando os “revolucionários” não puderam regularizar a tomada perante a opinião pública internacional, o Brasil enviou seu Exército para garantir a “posse” nessa região, que, antes, era chamada pela Bolívia de Barraca Empreza. Para que o Exército, se havia, na tese brasileira, direitos sobre a região? Página 20 – A que o senhor atribui tanta desconfiança, então? Hernan – À Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos, principalmente. Eles precisavam da seringa para garantir um mercado internacional, na época, tão forte quanto o petróleo. O quilo da borracha custava 4 dólares no resto do mundo. Página 20 – Com tanto dinheiro na história, a Bolívia ainda se ressente pelo fato de o Brasil não ter pago os 2 milhões de libras esterlinas que prometeu? Hernan – O que você sentiria se eu lhe devesse uma enorme quantia e nunca lhe pagasse, embora prometesse? Ficaria sentido comigo? Ou esqueceria, simplesmente? Página 20 – Eu poderia cobrar essa dívida. A Bolívia não poderia fazer isso? Hernan – Você acha que um menino de 10 anos pode lutar sozinho contra um homem de 25, cheio de irmãos? Página 20 – Quem é Plácido de Castro, na concepção boliviana? Hernan – Na concepção histórica, ele foi um aventureiro pago por Ramalho Júnior para iniciar a Quarta Revolução no Acre, pois lhe ofereceram 250 mil contos de réis (uns 60 mil dólares, atualmente) para dirigir um Exército. Vocês acham que ele foi um herói? Isso é aqui, onde a história não é bem contada. Página 20 – No Acre ele é considerado quase um mártir... Hernan – Sim, isso porque depois os interessados o mataram.
Página 20 – Quem? Hernan – Não sei. Ele foi assassinado, não? Eu acho que a morte dele foi encomendada por pessoas que já o consideravam perigoso para os planos internacionais. Estava surgindo como uma grande liderança e resolveram eliminá-lo antes que crescesse ainda mais. Página 20 – Mas mesmo assim ele liderou a revolução... Hernan – Sim, é claro. Mas com que interesses? Por que foi pago? Por que levou 60 mil dólares com isso? Além disso aqui no Brasil ele é um herói, isso é até natural. Para a Bolívia, não. Se alguém entrar na sua casa, roubar toda sua despensa farta para dar aos pobres, você chamá-lo de assaltante. Mas os pobres vão considerá-lo, sem julgar o erro do seu ato, um grande herói. Página 20 – Na guerra, o Exército boliviano estava preparado? Hernan – Não, não estava porque a Bolívia era um país pequeno, com pouca gente. Já o Brasil era imenso, e portanto com mais gente. Na guerra, a Bolívia tinha apenas um milhão de habitantes e seu exército não passava de um mil soldados. O Brasil tinha 35 milhões de habitantes e seu exército ultrapassava 25 mil homens. Quando o Barão do Rio Branco considerou o território litigioso, mandou todo o Exército Brasileiro ficar de prontidão - e avisou isso às autoridades bolivianas. Página 20 – Então foi uma espécie de ameaça? Hernan – Sim. Foi como se um assaltante invadisse a sua casa, colocasse uma arma na sua cabeça e exigisse tudo o que você tem. A Bolívia não teve alternativa, sob pressão e ameaça, senão assinar o acordo que liberava o Acre por livre e espontânea pressão militar. Ou assina ou morre. Foi o que se chama de ultimato. Página 20 – Na sua opinião a ameaça foi brasileira, apenas? Hernan – A ameaça foi do Barão do Rio Branco, mas é claro que ele obedecia ao imperialismo internacional norte-americano. E mesmo assim morreram mais de 1.500 bolivianos nas terras acreanas. Página 20 – O que o senhor acha da comemoração em torno dos cem anos dessas batalhas? Hernan – Acho que se os brasileiros acham que têm motivos para comemorar, que o façam. Mas a minha opinião, como historiador, é que nós fomos assaltados. O que fizeram com a Bolívia foi um assalto. A história prova isso. E o Brasil tanto sabia que era assim que ofereceu pagamento pelo território tomado. Página 20 – Teria sido uma compensação, como desencargo de consciência? Hernan – Exatamente. Só que aí existem detalhes interessantes. Os 2 milhões de libras esterlinas jamais foram pagos. Já a estrada de ferro Madeira-Mamoré, além de ter que ser construída em terras brasileiras e administrada por brasileiros, não serviria como compensação. Como poderia servir, estando localizada no Brasil? Página 20 – Nunca, nesses cem anos, nenhum deputado boliviano mais exaltado resolveu cobrar essa dívida? Hernan – Não. Até hoje, não. O desejo é uma coisa, né? Agora, a prática... (Jornal Página 20, 21.04.2002) |