Civilizações da floresta

Geoglifos e tradições ceramistas confirmam a presença de povos pré-históricos no Acre. Achados datam de 1.000 a 2.500 anos atrás


              É possível imaginar que tipos de povos habitavam a Amazônia na pré-história?

              Por volta de cinco mil anos atrás, os pesquisadores apontam o surgimento do que eles próprios denominaram de Cultura da Floresta Tropical, formada por grupos que viviam da agricultura, pesca, caça, sementes e outros produtos extraídos da floresta. Esses povos formavam uma casta social que dominavam a arte da cerâmica, deixando presente no mundo atual um legado com diversos sítios arqueológicos espalhados por toda a Amazônia.

              No Acre, alguns desses sítios foram catalogados pelo Instituto de Arqueologia Brasileira, por volta das décadas de 70 e 90, originando o surgimento de duas tradições ceramistas. Uma localizada nos vales do Purus e Acre, “Tradição Quinari”, e a outra no vale do Juruá, Tarauacá e Muru, batizada pelos pesquisadores de “Tradição Acuriá”.

              Para o historiador Marcos Vinicius das Neves, coordenador do Patrimônio Histórico da Fundação Elias Mansour, a presença dessas duas tradições aponta para um dado significativo - dentro da formação cultural e histórica das populações que habitavam os dois vales - de que são mais antigas do que imaginamos.

              Mas, segundo o historiador, não apenas as tradições ceramistas identificam a presença desses povos pré-históricos. Além das duas tradições, os chamados geoglifos, os misteriosos círculos, quadrados, hexágonos de terra, que chegam a medir de 150 a 350 metros de diâmetro, aguçam a curiosidade de estudiosos da área e comprovam a existência desses povos.

              “Essas formas geométricas são visíveis do céu, mas tinham alguma função para os grupos que habitavam aquele local”, comenta Vinicius.

Três hipóteses explicam o surgimento dos geoglifos

              Os geoglifos, que se localizam nas áreas consideradas como divisor de águas, entre os rios Acre e Xipamanu e Acre e Iquiri, revelam, segundo o historiador, que os povos pré-históricos, que construíram as misteriosas figuras, preferiam ocupar a terra firme a habitar as margens dos principais rios da região.

              Três possibilidades são apontadas por Marcos Vinicius e pesquisadores referentes a sua utilidade pelos povos pré-históricos. A primeira possibilidade é de uso militar: os povos cavavam a terra para formar as figuras como se fossem verdadeiras trincheiras, para se proteger de ataques de inimigos.

              Essa possibilidade é descartada, segundo explica Vinicius, por meio da forma das estruturas, que possuem uma mureta interna, uma valeta e uma mureta externa.

              “A mureta externa é a mais alta de todas, o que coloca o atacante numa posição privilegiada em relação ao defensor, o que prejudica a hipótese militar ou defensiva”, comenta Vinicius.

              Outra hipótese é a agrícola, onde os povos fariam a estrutura de terra para produzir a horticultura que necessitasse desse tipo de aporte tecnológico.

              “Na verdade nenhum desses sítios acumula água, um ou dois acumulam água nas valetas. Mas parece que esse não era o princípio, eles escolhiam exatamente os locais que não acumulavam água, para culturas que precisassem de um solo mais seco. Só que não existe nenhuma indicação de cultura que tenha necessidade dessas condições para poder ser desenvolvida”, explica o historiador.

              Um outro dado apontado por Vinicíus, se refere a uma informação não confirmada de muitos anos atrás de um pesquisador que teria visto estruturas como as dos geoglifos, onde os povos que habitavam o lugar as utilizavam para plantar ananais.

              “Os ananais junto com a mureta poderiam fazer uma barreira defensiva, então juntariam as duas hipóteses. Mas eu objetivamente nunca encontrei informação dessa com índios atuais, e não sei até que ponto essa informação é apropriada ou não”, diz Vinicius.

              A terceira possibilidade é de ser um arranjo, uma construção de caráter religioso de acordo com a cultura desses povos. Segundo Marcus Vinicius existe apenas uma referência histórica da presença dos geoglifos no Acre, que é uma referência de Chandless, quando subiu o Rio Acre em 1871, que pode confirmar a terceira hipótese.

              “Chandless, chegou numa aldeia que se encontra abandonada, pois os índios fogem dele que tem essas estruturas, quando ele volta na mesma aldeia, os índios não conseguem escapar à tempo, ele consegue fazer amizade com os índios e pergunta a eles para que serve o círculo em volta da aldeia, os índios responderam que era para fazer festa. Então, essa é a única referência histórica que temos indica um uso mais para o ritual dessas estruturas”, discorre.

              O caráter religioso, de uma certa forma para Vinicius, pode explicar as variações nas estruturas.


Geoglifos: círculos, quadrados, hexágonos

              Em Xapuri, existem dois grupos de estrutura: um mais próximo do município, no divisor de águas entre os rios Acre e Xipamano, que coincide com a BR-317 no trecho que vai para Xapuri, ali são localizados doze sítios de geoglifos, todos eles só círculos - o maior de todos possui 350 metros de diâmetro.

              Ao todo já foram encontrados pelos pesquisadores cerca de 30 geoglifos. Onde na área que vai para Xapuri existe o mais rico de todos, o sítio Los Angeles, onde há abundância de material arqueológico.

              “Existem vários tipos de cerâmica decoradas com pinturas e decoração, lâminas de machado inteira. Como no Acre não tinha pedra e nem tem, eles usavam piçarra, lá é uma região onde aparecem jazidas de piçarra naturais.

              O sítio Los Angeles é um dos mais ricos, onde foram feitas várias escavações controladas, e do qual os pesquisadores conseguiram catalogar algumas datações.

              Na BR-317, no trecho entre Rio Branco e Boca do Acre e na margem da BR 364 existem um outro grande conjunto desses sítios. Os geoglifos encontrados nessa área, não são somente circulares, são conjuntos onde aparecem quadrados, forma de U, quadrados com um círculo dentro, círculo com quadrado dentro, formando uma variação de formas. Para Marcus Vinicius essa diversidade de formas pode ter uma explicação, baseada na estética ritual.

              “A impressão que dá, com pequenas hipóteses, parece que é uma busca estética pelas formas mais perfeitas. Então, podemos levantar a possibilidade de que os grupos disputavam entre si quais os que construíam as mais bonitas e perfeitas formas geométricas e chamavam os outros grupos para participarem das festas rituais que ali eram praticadas”, comenta.

De onde vieram os povos pré-históricos que habitavam o Acre?

              Foi a partir da descoberta do sítio localizado na região de Sena Madureira, onde aparece um geoglifo na forma de círculo, que está associado a um cemitério indígena, - pois nas diversas escavações feitas na área foram encontradas enormes urnas mortuárias em cerâmica - , como relata o historiador, que teve início uma pesquisa, para a datação dos sítios de Xapuri, os de Rio Branco e o de Sena Madureira, com o propósito de se ter uma idéia de onde vieram esses povos e para onde eles foram.

              A base utilizada pelos pesquisadores, afirma que se a data mais antiga tivesse ao norte e a mais recente ao sul os povos teriam vindo da Bacia Amazônica em direção aos Andes. Se ao contrário, como diz Vinicius, os povos teriam vindo dos Andes em direção a Bacia Amazônica.

              “O que conseguimos com a pesquisa confirma a segunda hipótese. Então, os sítios mais antigos estão mais próximos de Xapuri e os mais recentes em Sena Madureira. Eles vieram da região dos Andes ou do Chacro Boliviano. Na região de Xapuri conseguimos uma datação aproximada de 2500 anos atrás e em Sena Madureira de 1000 anos”.

              Com base na pesquisa os povos pré-históricos vieram do Sul para o Norte, onde é encontrado uma ocupação semelhante é na região de Llano de Mojos, no norte da Bolivia. Segundo relata Marcus Vinicius, essa região é alagadiça, com um terreno extremamente fértil.

              “Para eles poderem fazer a agricultura tiveram que fazer grandes aterros e plataformas, onde ali ficava um ambiente seco e eles podiam plantar e colher. E as cerâmicas encontradas na região do Acre, são semelhantes as encontradas no Llano de Mojos. Então provavelmente essas populações vieram de lá”, diz.


Expedição aos geoglifos

              Para ver de perto os misteriosos geoglifos, a equipe do Página 20, foi convidada a acompanhar no último dia 1º de maio, uma pequena expedição. Pela primeira vez, uma equipe de reportagem da capital foi até o local, pois até o momento matérias à respeito só tinham sidos feitas com bases em fotos aéreas.

              A pequena expedição foi coordenada pelo paleontólogo Alceu Ranzi, que junto com o historiador Marcus Vinicius, catalogaram num trabalho fotográfico aéreo seis geoglifos. Esse trabalho foi financiado pela Lei de Incentivo à Cultura, patrocinado pela Casa Natal, que servirá para posterior pesquisa dos misteriosos desenhos.

              “Esse trabalho é apenas a localização dos geoglifos para ficar disponível aos arqueólogos. Fotografias e localidades. Isso deu resultado para que eu possa dizer hoje ‘vamos lá’, porque tem os pontos onde sobrevoamos e marcamos, depois viemos por terra”, explica Ranzi.

              Para fazer visitas aos geoglifos só é possível o acompanhamento de pesquisadores com conhecimento do assunto, e segundo Ranzi, é preciso autorização do Patrimônio Histórico Nacional, para que não ocorra depredação da área.

              O primeiro geoglifo que visitamos está localizado na área da BR-364, há cerca de 28 km de Rio Branco. Nesse local, utilizando um GPS, o paleontólogo Alceu Ranzi comandou o passeio. Caminhamos cerca de 500 metros, da estrada até o localização do primeiro geoglifo, um quadrado medindo entre 113 e 200 metros. Lá encontramos vestígios de cerâmica. E ficamos surpresos com a dimensão do geoglifo, imaginando as mais sugestivas e até viajantes hipóteses para o surgimento daqueles misteriosos desenhos.

              Seguimos para a BR-317 e, a cada geoglifo visitado, ficávamos mais impressionados por suas enormes dimensões e formas perfeitas.

“Digo que no meio desses povos tinha um engenheiro”

              Na propriedade do senhor Jacó Sá de Queiroz, 85 anos, morador do local há 45 anos, localizada no km 40, da BR-317, visitamos dois geoglifos - um em forma de quadrado e o outro quadrado com um círculo dentro.

              O ex-seringueiro e ex-soldado da borracha, contou à reportagem, que no local onde estão os geoglifos, há cerca de trinta anos atrás, era mata fechada, que aos poucos ao ser desmatado, as formas foram ficando visíveis, e aparecendo inúmeras vasos de cerâmicas, que se perderam com o tempo.

              Ele descarta a possibilidade militar e diz que no início quando descobriu os desenhos eram bem mais fundos.

              “Muitos dizem que isso aí foi feito pela guerra, mas não foi. Eles não iam ficar fazendo esses tantos de buracos, daqui para acolá, a trincheira é mais rasa. Vi no livramento como eram feitas as trincheiras. Quando descobri os desenhos eram bem mais fundos”, conta Jacó.

              Para Jacó a primeira hipótese que veio à sua cabeça, foi que os desenhos estavam ligados formação da cabeceira de um igarapé, mas logo depois que encontrou outros desenhos, descartou a possibilidade de vertente.

              “Achei que era vertente, mas quando achei os outros desenhos, pensei que era o pessoal do outro mundo que fez isso daqui. Achei o primeiro faz mais de trinta anos, quando fui fazer o roçado. Olhando melhor vi que tinha sido feita de forma manual, pois a terra é toda para um lado. Digo que nesse meio tinha um engenheiro quando ele não tava, os cabras davam um errada, e chegavam a desmanchar para pegar um outro lado”, comenta Jacó, lançando sua hipótese.

Tesouro histórico a ser preservado

              Hipóteses e mais hipóteses à parte, o importante é deixar claro que temos na região um grande patrimônio histórico a ser preservado, que lança uma questão bastante contraditória, no tocante a manutenção da preservação desse rico tesouro, segundo o historiador Marcus Vinicius.

               
“A pesquisa arqueológica em si é muito demorada, manter uma equipe em campo custa muito, fazer datação do Carbono 14, nos Estados Unidos, é caro, fazer análise do que coletamos demanda tempo. Não se faz pesquisa arqueológica com menos de 20 anos de trabalho, para você começar a ter resultados objetivos”, enfatiza.

               
O historiador aproveita para lançar um alerta nesse sentido, salientando que existe uma degradação acelerada desses sítios, especialmente porque se localizam nos divisores de águas, que coincide com as áreas onde são construídas as estradas. 

              “Os sítios aparecem geralmente nas margens das estradas, pois os índios naquela época procuravam área mais seca do divisor de águas, que é área que os engenheiros procuram para construir as estradas. Então, a possibilidade de destruição é intensa”, alerta Vinicius.

             
O historiador aponta como uma das saídas para a preservação desse rico patrimônio, a divulgação ao máximo, por meio da mídia da importância do conhecimento desses sítios.

               “Isso é importante para que a gente seja obrigado a contar a história de cem anos, com base no conhecimento da história milenar”, diz.

              Uma das possibilidades para preservar os sítios é transformar os locais para visitação turística, a exemplo de Nazca. 


(Jornal Página 20, 07.05.2002)