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É
bastante difícil, a esta altura, discutirmos o termo Revolução
Acreana. Lembro, quando garoto, que meu pai, um simples funcionário do
Palácio Rio Branco, pelos idos da década de 1960, falava aos seus sete
filhos de uma certa obra de História (não me lembro do autor) chamada
“A Epopéia do Acre”. Para meu pai, esta obra, era um grande
registro dos conflitos entre o exército de seringueiros acreanos,
comandados por Plácido de Castro, contra o exército regular da Bolívia,
que alguém havia lhe tomado emprestado e não mais devolvido. Ele
falava de uma paixão que tinha pela obra e pelos feitos de José Plácido
de Castro, colocados na obra. Meu pai foi envolvido pelas armadilhas do
autor, como todos seríamos envolvidos mais tarde. O perfume da
sacralização do termo Revolução Acreana estava a nos envolver. O
termo Revolução Acreana surge num contexto local e nacional para
tentar perpetuar a vitória de Plácido de Castro contra a Bolívia.
O
próprio termo “Epopéia” por si só significa “grandes feitos”,
“conquistas heróicas de um povo”. Ora, os nossos intelectuais do
começo do século XX, contemporâneos da inventada Revolução Acreana,
tinham o compromisso de enaltecer a nação, basta vermos o exemplo de
Euclides da Cunha, grande responsável pelos mais fascinantes escritos
sobre o Acre, nesse período. Nessa perspectiva de tornar o Acre um pedaço
de chão brasileiro, após o término dos conflitos, é que surge toda
uma literatura, publicada em livros e jornais, exaltando os feitos de
José Plácido de Castro, transpondo para os conflitos entre acreanos e
bolivianos os termos “Epopéia” e “Revolução”, inventados e
colocados fora de eixo de seus significados históricos. Não houve
revolução no Acre e nem os acreanos realizaram uma epopéia, nos
termos do que realizaram os americanos na conquista do velho oeste.
Uns
chamando de Epopéia, outros denominando de Revolução. O povo
facilmente se adapta a esses tipos de conceitos quando se exaltam
grandes feitos de seus antepassados. Lembro com segurança que a parte
que meu pai mais gostava de contar para os filhos, era a parte do livro
que narrava as dificuldades dos acreanos para dominar o povoado de Porto
Acre, em 1903, quando da morte de alguns seringueiros que tentavam
serrar uma corrente que atravessava o rio Acre, colocada pelos
bolivianos. Os feitos heróicos dos acreanos atraíram e traíram meu
pai e os outros leitores.
Os
termos Epopéia e Revolução, para os conflitos entre acreanos e
bolivianos, foram criados para que o povo lembrasse do fato, apenas como
um grande feito de Plácido de Castro, jogando na lixeira do
esquecimento as várias outras dimensões dos acontecimentos envolvendo
a questão da anexação do Acre pelo Brasil. Não houve revolução
nenhuma. É bom que se diga que este conflito está inserido entre as
dezenas de conflitos por demarcações de fronteiras entre povos da América
latina e nem por isso foram chamados de Revoluções.
Os
que persistem em achar que houve uma Revolução Acreana, é porque são
vinculados organicamente aos heróis, não vivem sem eles, adoram os
grandes feitos dos ditos grandes homens... A história do povo acreano e
dos patrícios bolivianos não vale.
Mas,
não sejamos tão ruins com os que inventaram os termos e nem tão cruéis
com os que hoje choram apaixonadamente por Plácido de Castro, muito
menos sejamos traidores da memória sacralizada de meu pai. O termo
Revolução Acreana está aí para ser discutido, é claro. Temos de
conviver com ele pelo resto de nossas vidas. Eu, particularmente, uso o
termo Revolução Acreana movido pela força da invenção até nos
acostumarmos com outra. Qual será o novo termo? Fica difícil, não é?
Nesse emaranhado de conceitos e preconceitos fica difícil achar um
outro termo para denominarmos os conflitos entre acreanos e bolivianos
na luta pela posse das terras do Acre.
Por
enquanto, no meu livro de História do Acre, aqui e ali uso o termo
“conflitos”, mas até quando? A força da tradição inventada foi
poderosa e encontraremos muitas dificuldades para vencê-la. Parece que
ela está muito mais forte agora, nesse Centenário da Revolução
Acreana. Venceu o positivismo que tanto combatemos no curso de História
da UFAC. É esta a sensação que está posta nas comemorações. Parece
não existir espaço para outras descobertas da História do Acre.
Estamos vivendo sob a égide do império dos grandes homens.
Bom,
mas em todo caso, considero que é perda de tempo ficarmos discutindo se
houve ou não revolução. É mais interessante, acredito eu, falarmos
do que a historiografia deixou de tratar sobre a questão: os silêncios
da Revolução. Por exemplo, a história oficial, ao tratar a Revolução
Acreana como algo masculinizado, excluiu importantes personagens dessa
história: As mulheres na Revolução Acreana. Afinal, onde estavam as
mulheres? O que faziam essas mulheres? Simplesmente foram excluídas da
escrita da História sobre a Revolução Acreana. Estou propondo uma
nova abordagem para a temática a partir do ponto de vista de que a
Revolução Acreana envolveu muita gente. Morreu muita gente. As
mulheres não estavam na linha de frente dos combates, mas estavam em
suas colocações de seringa, sem seus pais, sem seus maridos e sem seus
filhos, substituindo os homens nos trabalhos de uma colocação de
seringa. Não deixaram a produção parar. Elas passaram a produzir mais
borracha, pois, agora, além do seu trabalho normal no corte da seringa,
tinham que realizar os trabalhos dos homens que estavam na guerra. Boa
parte da alimentação consumida pelos soldados acreanos foi produzida
pelas mulheres nos seringais.
Geralmente
se tem tratado da chamada Revolução Acreana como se a mesma fosse
resumida apenas de três a cinco combates entre brasileiros e
bolivianos. Na verdade, os combates foram muitos no interior da floresta
dos vales do rio Acre e seus afluentes. Muitos brasileiros morreram.
Muitos soldados bolivianos morreram. Foi realmente uma guerra de
guerrilha. E o que é pior, a história oficial só se refere aos
grandes feitos de Plácido de Castro, enquanto comandante, e de suas perícias
de bom estrategista, o que realmente foi. No entanto, defendo que a
trama da guerra seja contada a partir também dos pequenos: seringueiros
e soldados bolivianos.
Um
outro mito criado ao redor de Plácido de Castro, é o costume da História
Oficial de tratar o herói Plácido de Castro, apenas na dimensão do
militar durão, que não dava moleza aos seus comandados. E isto era
verdade. É preciso se investigar os exageros de Plácido, diante dos
trabalhadores seringueiros. Como tratava os insubordinados que não
aceitavam ordens absurdas, que não aceitavam os abusos e a insensatez
do comandante. Antes de qualquer ação idiota de se continuar
idolatrando o mito Plácido de Castro, isolado do que estava à sua
volta, torna-se necessário e justo que façamos borbulhar as memórias
dos seringueiros e soldados bolivianos que foram trucidados nos
combates. Plácido de Castro, torna-se mais compreensível se visto
neste contexto dos conflitos, junto com seus “soldados”
trabalhadores.
Professor Doutor do Departamento de História
da UFAC
(Jornal
Página 20, 19.05.2002)
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