Revolução Acreana: a invenção do termo e as revoluções silenciadas

Carlos Alberto Alves de Souza


            É bastante difícil, a esta altura, discutirmos o termo Revolução Acreana. Lembro, quando garoto, que meu pai, um simples funcionário do Palácio Rio Branco, pelos idos da década de 1960, falava aos seus sete filhos de uma certa obra de História (não me lembro do autor) chamada “A Epopéia do Acre”. Para meu pai, esta obra, era um grande registro dos conflitos entre o exército de seringueiros acreanos, comandados por Plácido de Castro, contra o exército regular da Bolívia, que alguém havia lhe tomado emprestado e não mais devolvido. Ele falava de uma paixão que tinha pela obra e pelos feitos de José Plácido de Castro, colocados na obra. Meu pai foi envolvido pelas armadilhas do autor, como todos seríamos envolvidos mais tarde. O perfume da sacralização do termo Revolução Acreana estava a nos envolver. O termo Revolução Acreana surge num contexto local e nacional para tentar perpetuar a vitória de Plácido de Castro contra a Bolívia.

            O próprio termo “Epopéia” por si só significa “grandes feitos”, “conquistas heróicas de um povo”. Ora, os nossos intelectuais do começo do século XX, contemporâneos da inventada Revolução Acreana, tinham o compromisso de enaltecer a nação, basta vermos o exemplo de Euclides da Cunha, grande responsável pelos mais fascinantes escritos sobre o Acre, nesse período. Nessa perspectiva de tornar o Acre um pedaço de chão brasileiro, após o término dos conflitos, é que surge toda uma literatura, publicada em livros e jornais, exaltando os feitos de José Plácido de Castro, transpondo para os conflitos entre acreanos e bolivianos os termos “Epopéia” e “Revolução”, inventados e colocados fora de eixo de seus significados históricos. Não houve revolução no Acre e nem os acreanos realizaram uma epopéia, nos termos do que realizaram os americanos na conquista do velho oeste.

            Uns chamando de Epopéia, outros denominando de Revolução. O povo facilmente se adapta a esses tipos de conceitos quando se exaltam grandes feitos de seus antepassados. Lembro com segurança que a parte que meu pai mais gostava de contar para os filhos, era a parte do livro que narrava as dificuldades dos acreanos para dominar o povoado de Porto Acre, em 1903, quando da morte de alguns seringueiros que tentavam serrar uma corrente que atravessava o rio Acre, colocada pelos bolivianos. Os feitos heróicos dos acreanos atraíram e traíram meu pai e os outros leitores.

            Os termos Epopéia e Revolução, para os conflitos entre acreanos e bolivianos, foram criados para que o povo lembrasse do fato, apenas como um grande feito de Plácido de Castro, jogando na lixeira do esquecimento as várias outras dimensões dos acontecimentos envolvendo a questão da anexação do Acre pelo Brasil. Não houve revolução nenhuma. É bom que se diga que este conflito está inserido entre as dezenas de conflitos por demarcações de fronteiras entre povos da América latina e nem por isso foram chamados de Revoluções.

            Os que persistem em achar que houve uma Revolução Acreana, é porque são vinculados organicamente aos heróis, não vivem sem eles, adoram os grandes feitos dos ditos grandes homens... A história do povo acreano e dos patrícios bolivianos não vale.

            Mas, não sejamos tão ruins com os que inventaram os termos e nem tão cruéis com os que hoje choram apaixonadamente por Plácido de Castro, muito menos sejamos traidores da memória sacralizada de meu pai. O termo Revolução Acreana está aí para ser discutido, é claro. Temos de conviver com ele pelo resto de nossas vidas. Eu, particularmente, uso o termo Revolução Acreana movido pela força da invenção até nos acostumarmos com outra. Qual será o novo termo? Fica difícil, não é? Nesse emaranhado de conceitos e preconceitos fica difícil achar um outro termo para denominarmos os conflitos entre acreanos e bolivianos na luta pela posse das terras do Acre.

            Por enquanto, no meu livro de História do Acre, aqui e ali uso o termo “conflitos”, mas até quando? A força da tradição inventada foi poderosa e encontraremos muitas dificuldades para vencê-la. Parece que ela está muito mais forte agora, nesse Centenário da Revolução Acreana. Venceu o positivismo que tanto combatemos no curso de História da UFAC. É esta a sensação que está posta nas comemorações. Parece não existir espaço para outras descobertas da História do Acre. Estamos vivendo sob a égide do império dos grandes homens.

            Bom, mas em todo caso, considero que é perda de tempo ficarmos discutindo se houve ou não revolução. É mais interessante, acredito eu, falarmos do que a historiografia deixou de tratar sobre a questão: os silêncios da Revolução. Por exemplo, a história oficial, ao tratar a Revolução Acreana como algo masculinizado, excluiu importantes personagens dessa história: As mulheres na Revolução Acreana. Afinal, onde estavam as mulheres? O que faziam essas mulheres? Simplesmente foram excluídas da escrita da História sobre a Revolução Acreana. Estou propondo uma nova abordagem para a temática a partir do ponto de vista de que a Revolução Acreana envolveu muita gente. Morreu muita gente. As mulheres não estavam na linha de frente dos combates, mas estavam em suas colocações de seringa, sem seus pais, sem seus maridos e sem seus filhos, substituindo os homens nos trabalhos de uma colocação de seringa. Não deixaram a produção parar. Elas passaram a produzir mais borracha, pois, agora, além do seu trabalho normal no corte da seringa, tinham que realizar os trabalhos dos homens que estavam na guerra. Boa parte da alimentação consumida pelos soldados acreanos foi produzida pelas mulheres nos seringais.

            Geralmente se tem tratado da chamada Revolução Acreana como se a mesma fosse resumida apenas de três a cinco combates entre brasileiros e bolivianos. Na verdade, os combates foram muitos no interior da floresta dos vales do rio Acre e seus afluentes. Muitos brasileiros morreram. Muitos soldados bolivianos morreram. Foi realmente uma guerra de guerrilha. E o que é pior, a história oficial só se refere aos grandes feitos de Plácido de Castro, enquanto comandante, e de suas perícias de bom estrategista, o que realmente foi. No entanto, defendo que a trama da guerra seja contada a partir também dos pequenos: seringueiros e soldados bolivianos.

            Um outro mito criado ao redor de Plácido de Castro, é o costume da História Oficial de tratar o herói Plácido de Castro, apenas na dimensão do militar durão, que não dava moleza aos seus comandados. E isto era verdade. É preciso se investigar os exageros de Plácido, diante dos trabalhadores seringueiros. Como tratava os insubordinados que não aceitavam ordens absurdas, que não aceitavam os abusos e a insensatez do comandante. Antes de qualquer ação idiota de se continuar idolatrando o mito Plácido de Castro, isolado do que estava à sua volta, torna-se necessário e justo que façamos borbulhar as memórias dos seringueiros e soldados bolivianos que foram trucidados nos combates. Plácido de Castro, torna-se mais compreensível se visto neste contexto dos conflitos, junto com seus “soldados” trabalhadores.

Professor Doutor do Departamento de História da UFAC

 (Jornal Página 20, 19.05.2002)