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Lá vem mais um nome complicado. Astrapotherium é a denominação
de um mamífero conhecido apenas por restos fossilizados. O animal foi
descrito na Argentina, em 1879, por um cientista alemão chamado Hermann
Burmeister.
Burmeister
educado na Alemanha, um criacionista - fundamentalista bíblico, fez
carreira científica na Argentina. Contemporâneo dos Ameghinos, com os
quais manteve um longo debate científico envolvendo o criacionismo e a
novas idéias evolucionistas darwinianas. Uso o termo debate científico
para ser gentil com meus amigos e colegas paleontólogos. Na realidade foi
briga feia. O orgulho alemão em confronto com o nariz empinado dos
argentinos.
Voltemos
ao Astrapotherium. Baseado em alguns ossos fossilizados Burmeister teve que
criar um nome. Imaginou o animal vivo, de grande porte e possivelmente
barulhento. Denominou o bicho com o estranho nome Astrapotherium, que
derivado do grego poderia ser raio, corisco, faiscante ou trovejante. E
assim ficou, um mamífero fóssil trovejante! Um trovão de milhões de
anos.
Na
minha primeira Expedição ao Alto Juruá em 1977, em companhia do Dr. Daryl
Paul Domning, coletamos dentes de Astrapotherium na localidade Torre da Lua.
Dr. Domning é um cientista de renome, especialista em Sirênios
(Peixe-boi), professor na Howard University em Washington-USA. Em 1977, o
Dr. Domning estudava Sirênios em Manaus no INPA - Instituto Nacional de
Pesquisas da Amazônia.
Os
dentes de Astrapotherium, coletados na Torre da Lua, foram descritos em
minha Dissertação de Mestrado intitulada "Mamíferos Fósseis do
Cenozóico do Alto Juruá-Acre", apresentada e aprovada em 1981 na
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O material fossilizado pode ser
examinado no Laboratório de Pesquisas Paleontológicas e a Dissertação
pode ser consultada na Biblioteca Central da UFAC.
Astrapotherium
foi um animal de grande porte, talvez do tamanho de um rinoceronte. De hábito
herbívoro, deveria ter tido tromba e presas, semelhante aos elefantes.
Exclusivo da América do Sul, viveu e espalhou-se desde a Patagônia até a
Venezuela. Extinguiu-se antes de acontecer a ligação, pelo Istmo do Panamá,
da América do Sul com a América do Norte. No Acre o animal é conhecido
apenas por alguns registros.
Carlos
de Paula Couto, eminente cientista brasileiro, descreveu em 1974
Synastrapotherium amazonense, tendo por base um dente molar. Um molar
superior esquerdo, coletado na localidade Pedra Pintada, também no Alto
Juruá acreano, próximo da fronteira com o Peru.
Astrapotherium,
para a zoologia/paleontologia deu origem à Ordem Astrapotheria. E assim
dentro da Familia Astrapotheriidae, além do Astrapotherium, temos o
Parastrapotherium, o Astrapothericulus (da Argentina), o Uruguaytherium (do
Uruguai), o Xenastrapotherium (da Venezuela) e ainda o Synastrapotherium (da
Colômbia, Peru e Brasil (Acre). As novidades deste grupo estão com o Dr.
Rick Madden da Duke University – USA.
Para
2005/2006, se tudo correr bem, retornaremos ao Alto Juruá, em Expedição
que esperamos seja financiada pela National Geographic. Será um trabalho
conjunto entre pesquisadores da Universidade Federal do Acre, Duke
University, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Possivelmente terá a
participação de um paleontólogo argentino, para botar “pimenta” no
grupo.
A
presença de Astrapotherium e outros elementos da fauna pretérita da América
do Sul, coloca o Alto Juruá como um dos “hot spots” em paleontologia no
Brasil.
Estes
artigos, que podem parecer maçantes para um leitor desavisado, encontram
atentos observadores. Os artigos do Toxodonte e do Mastodonte estão
expostos no mural do Laboratório de Paleontologia da UFAC. Espero que o
Astrapotherium junte-se aos outros, formando a grande manada dos bichos fósseis
da megafauna do Acre.
(Jornal
O Estado, 02 a 08/01/2005)
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