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Ufac integra pesquisa sobre transmissão de leishmaniose no AC

publicado: 31/03/2026 03h02, última modificação: 31/03/2026 03h02
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A Ufac integra o projeto “Epidemiologia da Infecção por Espécies Dermotrópicas de ‘Leishmania spp.’ Circulantes no Estado do Acre, Brasil”, participando de uma rede de pesquisa que investiga a transmissão da leishmaniose tegumentar americana (LTA) no Estado. O objetivo é ampliar o conhecimento sobre a doença e fortalecer ações de vigilância e controle na região.

A LTA é uma doença negligenciada, causada por protozoários do gênero ‘Leishmania’, e transmitida pela picada de flebotomíneos, que são insetos conhecidos como mosquito-palha, birigui e asa-dura. A infecção atinge a pele e as mucosas e, na Amazônia, é popularmente chamada de “ferida braba”.

No Brasil, a doença apresenta alta incidência, especialmente na região Norte, que concentra mais da metade dos casos. O Acre se destaca nesse cenário. Somente na última década, foram notificados mais de 11 mil casos. Além disso, os municípios acreanos de Xapuri, Marechal Thaumaturgo, Assis Brasil, Sena Madureira e Brasileia foram classificados pelo Ministério da Saúde, em 2025, como áreas de risco intenso de transmissão.

O projeto é coordenado pelo pesquisador Reginaldo Peçanha Brazil, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), da Fiocruz, envolvendo, ainda, a Universidade Federal de Minas Gerais, a Universidade de Brasília, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre) e a Unidade de Pesquisa Médica Naval dos Estados Unidos. Entre as ações desenvolvidas, são incluídos o acompanhamento de casos humanos e caninos, análise de vetores e atividades de educação em saúde.

“Embora a leishmaniose tegumentar no Estado do Acre tivesse um papel de grande importância no cenário epidemiológico brasileiro, foi nos últimos anos que as grandes contribuições e perspectivas para seu controle apareceram”, disse Reginaldo Peçanha Brazil. “A pesquisa traz novos elementos para o conhecimento e fortalecimento das ações de vigilância na região.”

Estudo em Sena Madureira

Um dos principais eixos do projeto foi desenvolvido no município de Sena Madureira (AC), a partir da tese de doutorado de Leandro Siqueira, pelo programa de pós-graduação em Medicina Tropical, do IOC. O trabalho envolveu coleta de dados com pacientes e profissionais de saúde, análise de amostras humanas e caninas, captura de flebotomíneos e atividades de educação em saúde.

As análises identificaram as espécies de ‘Leishmania’ em circulação entre humanos, cães e vetores, além de investigar a presença do ‘Leishmania RNA vírus 1’ (LRV1), associada a formas mais graves da doença.

As análises moleculares foram realizadas no IOC, nos Laboratórios de Doenças Parasitárias e de Pesquisa em Leishmanioses, com apoio do Laboratório de Pesquisa e Diagnóstico Molecular Rodolphe Mérieux, da Fundação Hospital Estadual do Acre.

Na Ufac, o Laboratório de Patologia e Biologia Parasitária, do Centro de Ciências Biológicas e da Natureza, coordenado pelo professor Francisco Glauco de Araújo Santos, e o Laboratório de Entomologia Médica, do Centro de Ciências da Saúde e do Desporto, coordenado pela professora Andreia Fernandes Brilhante, conduziram as atividades de campo nas comunidades rurais de Sena Madureira.

“Estudar e conhecer melhor a epidemiologia da doença em uma área endêmica é fundamental para o Acre, especialmente no caso dos cães, sobre os quais ainda se sabe pouco”, pontuou Francisco Glauco. “Nosso trabalho traz novas evidências importantes para o Brasil.”

Resultados inéditos

A pesquisa identificou cinco espécies de ‘Leishmania’ em humanos e quatro em cães, evidenciando a complexidade da transmissão. Também foi confirmada a presença do parasito nos flebotomíneos. Outro destaque foi a detecção do ‘Leishmania RNA vírus 1’ (LRV1) em amostras humanas e caninas. Estudos mostram que o vírus pode estar relacionado ao agravamento dos casos e a falha no tratamento.

“Os resultados contribuem para aprimorar as estratégias de vigilância e controle da leishmaniose no Acre e no Brasil. Entre os destaques está o primeiro registro de ‘Leishmania (Viannia) lindenbergi’ no Estado e o primeiro relato dessa espécie em cães nas Américas. Além disso, esse é o primeiro estudo a detectar o ‘Leishmania RNA vírus 1’ em amostras humanas e caninas”, explicou Leandro Siqueira.

Impacto no município

O projeto tem impacto na rede de saúde de Sena Madureira. Profissionais participaram de capacitações e passaram a atuar com informações mais atualizadas sobre a doença, o que contribuiu para melhorar o atendimento à população.

“Essas atividades nos proporcionaram novos conhecimentos teóricos e práticos, bem como acesso a materiais e equipamentos para diagnóstico que não temos na região”, contou a técnica microscopista Luzia Elias, do serviço de endemias do município. “A visita dos pesquisadores em nosso setor foi fundamental para a troca de conhecimento e de experiências, principalmente para a assistência aos pacientes.”

Médica no município e colaboradora da pesquisa, Marta Elizeu ressaltou a importância do conhecimento gerado. “Saber quais espécies estão circulando permite direcionar melhor o tratamento e melhorar os resultados clínicos. As capacitações realizadas pela Sesacre e pelo grupo de pesquisa ajudam a manter as equipes atualizadas.”

Continuidade dos estudos

Os trabalhos do grupo de pesquisa seguem de forma contínua e estruturada. Até o momento, os pesquisadores contam com dois artigos aceitos para publicação e encaminharão um relatório técnico à equipe de vigilância da Sesacre.

Novos estudos são desenvolvidos, com ênfase na investigação sistemática da infecção canina, no monitoramento da fauna de flebotomíneos, na avaliação da resposta terapêutica humana e no apoio à padronização de testes diagnósticos.

Essas ações integram o projeto de pesquisa “Análise Situacional da Transmissão Intensa da Leishmaniose Tegumentar Americana no Estado do Acre, Brasil”, coordenado por Francisco Glauco e Leandro Siqueira, com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e apoio de instituições parceiras.