Pensando uma Psicanálise Antirracista: diálogos com a produção teórica negra
O projeto de planejamento de grupo de estudos intitulado “Pensando uma Psicanálise Antirracista: diálogos com a produção teórica negra” consiste em uma proposta pedagógica e de extensão universitária elaborada e coordenada por Letícia Nogueira Bernardino. A iniciativa está sediada institucionalmente na Universidade Federal do Acre (UFAC) e articula-se de maneira intersetorial por meio das ações do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI) e do Programa de Educação Tutorial (PET) na linha de Educação Antirracista. O escopo central do trabalho visa promover a intersecção crítica entre a teoria psicanalítica, a práxis da luta antirracista e as discussões étnico-raciais contemporâneas. A coordenação compreende este diálogo epistemológico como uma ferramenta indispensável de resistência política e de valorização das subjetividades e identidades negras dentro e fora do ambiente acadêmico, estruturando o grupo como um espaço coletivo, seguro e horizontal para a livre exposição de ideias.
A justificativa para a implementação da proposta fundamenta-se na identificação de uma lacuna crônica e histórica nos currículos de graduação em Psicologia. Observa-se que o debate teórico relacionando a psicanálise ao antirracismo é raramente abordado ou, quando ocorre, é tratado de forma superficial pelas grades curriculares tradicionais. Historicamente, o campo psicanalítico foi constituído sob um referencial eurocêntrico e branco, o que acabou por invisibilizar ou silenciar sistematicamente o legado teórico de autores e autoras negras. Diante disso, o projeto assume relevância tanto para a formação acadêmica interna quanto para o corpo social, uma vez que prepara futuros profissionais para atuar diretamente no enfrentamento do racismo, demonstrando que a clínica psicológica deve acolher as diferentes realidades e subjetividades negras, mitigando o medo institucionalizado do preconceito. No que tange aos objetivos estabelecidos, o propósito geral do grupo concentra-se em discutir de forma sistemática a temática racial no campo psicanalítico a partir do referencial teórico de intelectuais de peso, tais como Frantz Fanon, Neusa Santos Souza, Virgínia Bicudo e Lélia Gonzalez.
Com isso, busca-se identificar as omissões conceituais da abordagem tradicional e afirmar novas perspectivas clínicas que reintegrem a dimensão social à escuta psicológica. Especificamente, o plano de trabalho visa reconhecer formalmente o legado de Fanon e demais teóricos na psicanálise, diagnosticar as falhas estruturais da teoria tradicional quanto ao quesito raça e, por fim, desconstruir de maneira definitiva a noção de uma psicanálise dita "a-social", evidenciando as vertentes científicas que posicionam o racismo e as opressões sociais como elementos estruturantes do psiquismo humano. O segundo encontro avança para a análise da psicanálise sob a ótica crítica de Frantz Fanon, discutindo como o autor criticou, ressignificou e ampliou os conceitos psicanalíticos para a realidade do sujeito colonizado, utilizando o texto de Regina Oliveira sobre as epistemologias da violência para debater o adoecimento psíquico decorrente do racismo. No terceiro encontro, a oficina foca no cenário brasileiro por meio da "psicanálise implicada" de Virgínia Bicudo e Neusa Santos Souza, debatendo os processos de identificação com o ideal branco e o conceito de tornar-se negro como uma descolonização necessária do desejo, com suporte dos capítulos III e IV da obra clássica Tornar-se Negro. O quarto e último encontro encerra o ciclo examinando o racismo na cultura e na política através de Lélia Gonzalez (com o texto Racismo e sexismo na cultura brasileira) e Achille Mbembe, problematizando o papel da clínica diante da violência de Estado. A avaliação final consistirá em uma dinâmica de produção compartilhada de um glossário colaborativo de conceitos antirracistas criados e aperfeiçoados coletivamente pelos próprios bolsistas.